Poucas frases associadas ao Hermetismo se tornaram tão conhecidas quanto:
“O que está em cima é como o que está embaixo; e o que está embaixo é como o que está em cima.”
Em latim, a passagem aparece em uma das versões da Tabula Smaragdina:
Quod est superius est sicut quod inferius, et quod inferius est sicut quod est superius.
A frase costuma ser apresentada como um dos grandes princípios do Hermetismo. Hoje, porém, ela aparece em livros, sites e redes sociais muitas vezes separada de seu contexto original. E é justamente aí que começam os problemas.
O que significa, afinal, “o que está em cima” e “o que está embaixo”?
A resposta não é tão simples quanto dizer que “o céu reflete a Terra” ou que “o universo exterior reflete nosso interior”.
Essas são interpretações posteriores e, embora possam ser interessantes, não devem ser apresentadas como se fossem a única tradução possível do texto.
Para compreender a frase, precisamos voltar à Tábua de Esmeralda.
De onde vem essa frase?
A frase pertence à Tábua de Esmeralda (Tabula Smaragdina), um pequeno texto tradicionalmente atribuído a Hermes Trismegisto. Apesar dessa atribuição, a história conhecida do texto é medieval.

🏛️ Observação histórica
Esta imagem é uma recriação artística contemporânea e não uma reprodução de um manuscrito medieval específico. A Tabula Smaragdina possui uma história textual complexa, com testemunhos antigos em árabe e posteriores versões e traduções latinas. A inscrição apresentada na imagem é uma representação estilizada da tradição latina e não deve ser utilizada como fonte para estabelecer a aparência ou o conteúdo de um manuscrito histórico específico.
As versões mais antigas conhecidas estão em árabe, e a Tábua aparece inserida em obras da tradição árabe relacionadas a Hermes e à alquimia. Uma das versões mais importantes encontra-se no Kitāb sirr al-khalīqa, o chamado Livro do Segredo da Criação e da Arte da Natureza.
Posteriormente, o texto foi traduzido para o latim e passou a circular amplamente na Europa medieval e, sobretudo, entre os alquimistas do Renascimento.
Portanto, há uma distinção importante: A frase é tradicionalmente hermética, mas a Tábua de Esmeralda não faz parte do Corpus Hermeticum.
Essa diferença será importante para nosso estudo.
“Em cima” e “embaixo” significam o quê?
A interpretação mais imediata é pensar em uma oposição entre céu e Terra.
Essa leitura faz sentido dentro do universo intelectual da alquimia e da cosmologia antigas e medievais, no qual os fenômenos terrestres e celestes podiam ser compreendidos como partes de uma mesma ordem natural.
Mas precisamos ter cuidado, pois a Tábua de Esmeralda é um texto extremamente conciso e enigmático. Ela não apresenta uma explicação sistemática dizendo: “Em cima significa isto, e embaixo significa aquilo.”
O próprio texto continua dizendo que aquilo que está acima e aquilo que está abaixo estão relacionados à realização dos “prodígios da coisa única”.
Na conhecida versão latina: …ad perpetranda miracula rei unius.
Ou seja, a comparação não aparece isoladamente. Ela está inserida em uma afirmação maior sobre uma coisa única e sobre suas transformações. Por isso, interpretar a frase apenas como “céu e Terra são iguais” é simplificar demais.
A palavra “como” é importante
Existe ainda uma questão interessante na própria tradução. A versão latina tradicional utiliza sicut, que significa “como”, “assim como” ou “semelhante a”.
Daí:
Quod est superius est sicut quod inferius.
“O que está acima é como o que está abaixo.”
Essa formulação enfatiza uma relação de semelhança ou correspondência.
Mas as versões árabes mais antigas conhecidas apresentam diferenças importantes de formulação. Algumas utilizam uma construção que pode ser entendida como “o superior provém do inferior e o inferior do superior”, em vez da fórmula latina baseada simplesmente na semelhança.
Isso é extremamente interessante. Significa que a famosa frase que conhecemos hoje também é resultado de uma história de transmissão e tradução.
Portanto, quando repetimos “o que está em cima é como o que está embaixo”, estamos utilizando uma formulação tradicional que ganhou enorme importância na tradição latina.
Não estamos necessariamente reproduzindo palavra por palavra uma suposta frase original pronunciada por Hermes.
A “coisa única”
Aqui está uma das partes mais importantes da passagem. Logo depois da afirmação sobre o superior e o inferior, a Tábua continua falando da origem de todas as coisas a partir de um.
A tradução latina tradicional apresenta: Et sicut res omnes fuerunt ab uno…
Algo como: “E assim como todas as coisas vieram de um…” A frase conduz o leitor para uma ideia de unidade por trás da multiplicidade.
Temos muitas coisas, diferentes níveis e diferentes manifestações, mas o texto procura relacioná-las a uma realidade fundamentalmente una.
É nesse contexto que a correspondência entre “superior” e “inferior” começa a adquirir outro sentido. Não se trata simplesmente de dizer que uma coisa é uma cópia da outra.
A ideia parece estar relacionada a uma relação entre diferentes manifestações de uma mesma realidade ou processo.
O Sol, a Lua, o vento e a Terra
Depois da passagem sobre o superior e o inferior, o texto apresenta uma sequência de imagens: “Seu pai é o Sol, sua mãe é a Lua; o vento o carregou em seu ventre; a Terra é sua nutriz.”
Essa linguagem mostra por que a Tábua de Esmeralda se tornou tão importante para a tradição alquímica.
O texto não apresenta uma explicação científica moderna. Ele trabalha por meio de imagens de parentesco, geração, movimento e transformação.
Sol, Lua, vento e Terra aparecem relacionados a uma mesma realidade. A natureza é apresentada como uma rede de relações. É nesse universo simbólico que a frase sobre o superior e o inferior deve ser lida.
Isso significa “o céu influencia a personalidade”?
Não necessariamente. Essa é uma interpretação que aparece com frequência em conteúdos modernos sobre Hermetismo, especialmente quando a frase é relacionada diretamente à astrologia.
A astrologia possui, de fato, uma longa história de relações com tradições herméticas e esotéricas.
Mas não devemos transformar automaticamente uma frase da Tábua de Esmeralda em uma afirmação moderna sobre personalidade, mapa astral ou destino.
O texto é muito mais antigo e mais ambíguo do que essas interpretações posteriores deixam parecer.
Quando estudamos uma tradição histórica, é importante perguntar: O que o texto diz? e depois: Como outras épocas interpretaram o texto?
As duas perguntas são igualmente interessantes, mas não são a mesma coisa.
E a relação entre macrocosmo e microcosmo?
Aqui chegamos a uma interpretação que realmente se tornou muito importante na tradição hermética e alquímica: a relação entre macrocosmo e microcosmo.
O macrocosmo seria o grande universo. O microcosmo, o ser humano enquanto pequeno mundo.
A ideia de correspondência entre diferentes níveis da realidade teve grande importância na história do pensamento ocidental e foi utilizada de diferentes maneiras por autores ligados ao Hermetismo, à astrologia, à magia natural e à alquimia.
Nesse contexto, “acima” e “abaixo” podem ser compreendidos como uma linguagem para pensar relações entre diferentes ordens da realidade.
Mas novamente devemos evitar uma simplificação: a frase da Tábua de Esmeralda não é simplesmente uma definição de “macrocosmo e microcosmo”.
Essa associação pertence à história mais ampla das interpretações herméticas.
O que a frase significa para a alquimia?
É aqui que a passagem ganha uma força especial.
A Tábua de Esmeralda não descreve apenas uma estrutura estática. Ela fala de movimento e transformação.
Em seguida, encontramos outra passagem famosa: “Ele ascende da Terra ao Céu e novamente desce à Terra.” A imagem é de circulação.

🏛️ Observação histórica
Esta é uma representação artística contemporânea inspirada na linguagem simbólica da Tábua de Esmeralda. Ela não reproduz uma ilustração histórica específica nem deve ser entendida como uma descrição literal de um procedimento alquímico. A passagem sobre a ascensão ao Céu e a descida à Terra foi interpretada de diferentes maneiras ao longo da história da alquimia.
Algo sobe. Algo desce. E, nesse movimento, recebe as forças do superior e do inferior. A tradição alquímica posterior encontrou nessa linguagem um terreno fértil para suas próprias interpretações.
A transformação da matéria podia ser pensada como um processo no qual diferentes qualidades eram separadas, purificadas, reunidas e transformadas.
Por isso, a frase sobre o superior e o inferior não deve ser isolada da sequência que a acompanha.
Ela faz parte de um texto sobre unidade, geração, separação, ascensão, descida e transformação.
“As Above, So Below” é um princípio do Hermetismo?
Sim e não. É uma expressão profundamente associada ao Hermetismo e à tradição esotérica ocidental.
Mas a forma curta “As Above, So Below” é uma espécie de condensação da passagem mais longa da Tábua de Esmeralda.
A frase tornou-se especialmente popular em tradições esotéricas modernas e passou a funcionar quase como um lema independente.
Isso criou um problema interessante. Quanto mais famosa a frase se tornou, mais ela passou a ser retirada do texto que lhe deu origem.
Hoje, muitas pessoas conhecem: As above, so below, mas nunca leram a Tábua de Esmeralda. E a própria Tábua é muito mais complexa do que esse pequeno fragmento.
O que a frase não significa
Para evitar alguns dos erros mais comuns, podemos estabelecer algumas distinções.
Não significa simplesmente:
“Tudo que acontece no céu acontece exatamente na Terra.” Essa é uma interpretação excessivamente literal.
Não significa necessariamente:
“O universo exterior é um espelho perfeito da nossa mente. Essa é uma interpretação psicológica moderna, não uma definição histórica da frase.
Não significa:
“Hermes Trismegisto criou uma lei universal chamada Lei da Correspondência.” Essa formulação pertence principalmente a interpretações esotéricas modernas.
E não significa:
“A frase prova cientificamente que tudo está conectado.” Esse tipo de afirmação mistura linguagem simbólica com categorias da ciência contemporânea.
Então qual seria uma boa maneira de entendê-la?
Podemos começar por algo mais simples. A frase expressa a ideia de que diferentes níveis ou aspectos da realidade podem guardar entre si relações de semelhança, correspondência e transformação.
Na tradição da Tábua de Esmeralda, essa correspondência está ligada à ideia de uma realidade una que se manifesta de diferentes maneiras.
Na história posterior do Hermetismo e da alquimia, essa passagem foi interpretada de muitas formas.
Alguns leitores enfatizaram a relação entre céu e Terra. Outros, entre macrocosmo e microcosmo. Outros ainda encontraram nela uma descrição simbólica do próprio trabalho alquímico.
Por isso, talvez seja mais interessante não procurar uma única tradução definitiva do símbolo. A força da Tábua está justamente na sua capacidade de gerar interpretações dentro de diferentes contextos históricos.
Por que essa frase ficou tão famosa?
A resposta passa pelo enorme impacto da Tábua de Esmeralda na alquimia medieval e renascentista.
Versões latinas circularam na Europa a partir da Idade Média, e o texto passou a receber comentários de autores alquímicos.
Durante o Renascimento, a Tábua tornou-se particularmente influente na literatura alquímica e na construção da imagem de Hermes como autoridade da prisca sapientia, a antiga sabedoria.
Mais tarde, sua influência ultrapassou os círculos propriamente alquímicos. A fórmula passou a aparecer em diferentes tradições esotéricas modernas e acabou se transformando em uma das frases mais reconhecíveis associadas ao Hermetismo.
Uma frase curta para um texto muito maior
Talvez essa seja a melhor maneira de olhar para ela. “O que está em cima é como o que está embaixo” não é o Hermetismo inteiro.
É uma pequena passagem de um texto igualmente pequeno, mas extremamente denso. Sua importância não está apenas na frase isolada. Está no conjunto de imagens que a acompanha: o Um, o Sol, a Lua, o vento, a Terra, a separação, a ascensão, a descida e a transformação.
Quando colocamos a frase novamente dentro desse contexto, ela deixa de parecer um simples lema motivacional.
Ela volta a ser aquilo que sempre foi para os leitores da tradição: um enigma a ser contemplado e interpretado.
Perguntas frequentes
De onde vem a frase “o que está em cima é como o que está embaixo”?
Ela vem de uma passagem da Tábua de Esmeralda (Tabula Smaragdina), texto tradicionalmente atribuído a Hermes Trismegisto. A conhecida formulação latina é Quod est superius est sicut quod inferius….
A frase está no Corpus Hermeticum?
Não. A Tábua de Esmeralda possui uma história textual diferente da coleção conhecida como Corpus Hermeticum.
O que significa “acima” e “abaixo”?
Não existe uma interpretação única e definitiva. A passagem pode ser relacionada a diferentes níveis da realidade, especialmente no contexto de correspondência entre superior e inferior, mas muitas interpretações específicas são posteriores.
A frase tem relação com a alquimia?
Sim. A Tábua de Esmeralda teve enorme influência sobre a tradição alquímica medieval e renascentista, e suas imagens de separação, ascensão, descida e transformação foram interpretadas alquimicamente.
A frase significa que o ser humano é um “universo em miniatura”?
Essa interpretação se aproxima da ideia de microcosmo e macrocosmo, que possui uma longa história filosófica e esotérica. Porém, não devemos tratar essa formulação como uma tradução literal da frase da Tábua.
Da Biblioteca da Autora
Para aprofundar o estudo, vale consultar a própria história textual da Tábua de Esmeralda e suas diferentes versões.
Um recurso especialmente interessante é a Bibliotheca Philosophica Virtualis, que reúne informações sobre manuscritos e versões da Tabula Smaragdina, incluindo a tradução latina atribuída a Hugo de Santalla e exemplares manuscritos preservados em bibliotecas europeias.
Também é importante consultar estudos acadêmicos sobre a história do Hermetismo e da alquimia, especialmente quando encontramos interpretações modernas que apresentam a frase como se tivesse um único significado desde a Antiguidade.
Referências
- COPENHAVER, Brian P. (ed.). Hermetica: The Greek Corpus Hermeticum and the Latin Asclepius. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
- DORN, Gerhard. Comentários e interpretações da Tabula Smaragdina na tradição alquímica renascentista.
- YATES, Frances A. Giordano Bruno and the Hermetic Tradition. Chicago: University of Chicago Press, 1964.
- HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
- Bibliotheca Philosophica Virtualis. Tabula Smaragdina. Repositório dedicado à história textual e aos testemunhos manuscritos da tradição.