Neste blog iniciaremos uma série dedicada ao estudo dos símbolos e conceitos da tradição alquímica a partir de algumas importantes obras de referência.
Entre elas está A Dictionary of Alchemical Imagery, da pesquisadora Lyndy Abraham, publicado pela Cambridge University Press. A obra reúne e analisa uma ampla tradição de imagens e símbolos alquímicos, relacionando seus significados físicos, filosóficos, espirituais e literários.
Como a obra não possui, até onde sabemos, uma edição publicada em português, alguns de seus conceitos serão apresentados aqui em português por meio de sínteses, traduções de pequenos trechos e comentários, sempre com a devida referência à fonte.
Também consultaremos outras obras importantes, como o Dictionary of Alchemy, de Mark Haeffner, buscando comparar diferentes interpretações e ampliar o estudo dos símbolos.
O objetivo não é simplesmente traduzir um dicionário, mas construir um espaço de estudo da linguagem alquímica, colocando em diálogo diferentes fontes e ajudando o leitor a compreender como uma mesma imagem pode assumir diferentes significados dentro do opus alchymicum.
Adão: significado na Alquimia
A prima materia, Mercurius; o primeiro adepto e filósofo natural, segundo a tradição alquímica. Dizia-se que o segredo da pedra filosofal havia sido divinamente revelado a Adão e, posteriormente, retirado do paraíso e transmitido aos Santos Patriarcas.
Elias Ashmole escreveu que Adão, “antes de sua Queda, era um Filósofo tão absoluto, que compreendia plenamente e verdadeiramente o conhecimento da Natureza (que nada mais é do que aquilo que chamamos de Magia Natural, no mais alto grau de Perfeição)” (TCR, 445). (Ver doutrina das assinaturas.)
Em The Alchemist in His Study, de Ben Jonson, Paracelso afirma possuir um tratado alquímico secreto escrito por Adão: “Eu lhe mostrarei um livro, onde MOISÉS, e sua irmã,/E SALOMÃO escreveram, sobre a arte;/E um tratado enviado por ADÃO.” (2.1.81–3).”
Paracelso atribui a longevidade de Adão ao fato de ele ser “tão instruído e sábio, um Físico, e conhecer todas as coisas que existem na própria Natureza” (Arch., 114).
No contexto do opus magnum, Adão é um sinônimo da prima matéria, a substância da qual se acredita que o universo e todas as coisas nele existentes tenham sido criados.
Pensava-se que o nome “Adão” derivasse do hebraico adom, que significa “terra vermelha”; por isso, a prima materia é algumas vezes chamada de “terra vermelha”.
A matéria-prima também é chamada de aqua permanens, o “esperma” (às vezes menstruum) do mundo, e nosso Mercúrio (o mercúrio filosófico, em oposição ao mercúrio comum). John Dee referiu-se, em sua Monas hieroglyphica, àquele “mais famoso Mercúrio dos filósofos, Mercúrio do microcosmo e Adão” (165).
Mercurius é o nome dado à secreta substância transformadora que converte a prima materia no objetivo final do opus, a pedra filosofal. Assim, Adão é potencialmente o “novo” Adão, o Cristo ou o homem filosófico (philosophical man).
A tradição hermética afirma que Adão era hermafrodita antes da Queda. Na alquimia, Mercurius personifica o Adâmico “hermafrodita”, porque, como prima materia, ele contém tanto as sementes masculina e feminina dos metais (“enxofre” e “prata viva”, respectivamente).
O hermafrodita também representa a entidade que consiste na união das sementes masculina e feminina, Sol e Luna, isto é, o casamento químico.
A necessidade do casamento químico (ou coniunctio) baseava-se na ideia de que, após a Queda, o homem perdeu seu estado Adâmico original e indiviso e teve de se reconciliar e unir as partes conflitantes de si mesmo para recuperar sua natureza integrada (simbolizada pela união do masculino e do feminino).
O que Adão representa na Alquimia?
Na linguagem alquímica, Adão não deve ser compreendido apenas como o personagem bíblico. Ele pode representar a matéria primordial, o homem original, o microcosmo, o Mercurius e a condição anterior à divisão dos opostos.
A Queda, nesse contexto simbólico, torna-se uma imagem da separação; a obra alquímica, por sua vez, pode ser compreendida como um processo de reunião e transformação.
O Adão Cabalista

A alquimia está tão entrelaçada com a Cabala hebraica, em sua forma especulativa, que a teologia de Adão se torna fundamental para compreender a tradição esotérica da alquimia, que se ocupa principalmente da redenção da natureza adâmica do homem.
Já Zósimo (século III d.C.) demonstra o desconcertante sincretismo presente na alquimia. Ele equipara Adão a Thoth Hermes, como aquele que dá nomes às coisas do mundo; afirma que a palavra caldeia e hebraica Adam significa “terra vermelho-sangue”, e interpreta inclusive as letras do nome segundo significados secretos em um espírito profundamente cabalístico:
A = ascensão, D = descida, A = Norte, M = meridiano, Sul, fogo ardendo na quarta região.
Zósimo afirma que somente os hebreus e os textos herméticos preservam essa doutrina sobre o “Homem da Luz” e seu guia, o “Filho de Deus”. (Ver Jung, Psychology and Alchemy, p. 350.)
A doutrina esotérica de Adão Cadmon é fundamental para a Cabala e chegou a influenciar o Neoplatonismo renascentista e toda a visão de mundo paracelsiana.
O Deus das dez Sefirot, ou emanações, é diretamente identificado, em sua forma puramente espiritual, com o homem, que antes da Queda nada mais era do que um ser puro e imaculado.
Quando a numerologia cabalística (a técnica denominada Gematria) é aplicada ao seu nome, descobre-se que ele contém o próprio nome de Deus em sua manifestação criadora no mundo.
A doutrina cabalística de Adão como microcosmo identifica claramente Adão com Mercúrio Mas aos elementos terrenos acrescenta-se a alma, ou quintessência, que é o princípio da redenção — ou aquilo que Jung chama de “individuação”.
A imagem alquímica de Adão
Uma representação dramática em um manuscrito italiano do século XIV mostra Adão como Matéria-Prima, ou “Terra Adâmica”, atravessado por uma flecha mercurial. A Árvore do Filósofo brota de seus genitais; a lua observa, como símbolo da Nigredo.
A imagem correspondente de Eva a mostra com a árvore surgindo de sua cabeça. Jung interpreta isso como o contraste entre a função anima no homem e o animus na psicologia feminina.
Biblioteca da Alquimia
Obra principal deste estudo:
Lyndy Abraham — A Dictionary of Alchemical Imagery.
Outras obras consultadas:
Mark Haeffner — Dictionary of Alchemy
C. G. Jung — Psychology and Alchemy