Olá, prezado leitor! Seja bem-vindo(a)! Eu sou a Lidiane Franqui e hoje vou falar sobre algo bem interessante, que são símbolos. Como na Alquimia a linguagem simbólica é bastante presente, entre um artigo e outro de estudo vou apresentar significados dos símbolos usados na Alquimia. Assim, teremos nosso estudos enriquecido.
Então vamos lá! Hoje vamos falar sobre o Pelicano na Alquimia. Entre os animais que aparecem na iconografia alquímica, o pelicano é um dos mais interessantes.
Sua imagem costuma mostrar a ave inclinando a cabeça sobre o próprio peito, enquanto alimenta os filhotes. Para quem encontra essa figura pela primeira vez em um livro de alquimia, a cena pode parecer estranha.
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Por que um pelicano? E por que essa imagem aparece ao lado de vasos, fornos, metais, reis, rainhas e outras figuras da linguagem alquímica? A resposta passa por uma longa história de símbolos.
Antes de ser incorporado à alquimia, o pelicano já possuía uma tradição simbólica importante na cultura medieval. A imagem da ave que alimenta os filhotes com o próprio sangue tornou-se uma representação do sacrifício e da entrega de si.
O Getty Museum registra essa tradição em manuscritos medievais, observando que a imagem foi utilizada como alegoria do sacrifício de Cristo. Quando o pelicano aparece em imagens alquímicas, porém, precisamos dar um passo além.
Ele não possui um único significado universal.
Em diferentes contextos, o pelicano pode representar um recipiente ou aparelho de circulação, o elixir vermelho ou determinadas etapas da obra. A própria literatura de referência sobre imagens alquímicas chama atenção para essa multiplicidade.
É justamente isso que torna o símbolo tão interessante.
De onde vem a imagem do pelicano?
A associação do pelicano com o próprio sangue é muito anterior à alquimia. Na tradição medieval, difundiu-se a história segundo a qual, em situações extremas, o pelicano feria o próprio peito para alimentar ou reanimar seus filhotes.
A história não corresponde ao comportamento real da ave. O Getty observa que essa tradição tem raízes em folclores anteriores ao cristianismo e posteriormente foi incorporada à iconografia cristã.

🏛️ Observação histórica
Esta imagem é uma recriação artística contemporânea inspirada na iconografia medieval e não reproduz um manuscrito específico. A antiga tradição segundo a qual o pelicano alimentaria seus filhotes com o próprio sangue não corresponde ao comportamento real da ave, mas tornou-se uma poderosa imagem simbólica na arte medieval, especialmente associada ao sacrifício de Cristo. Essa tradição simbólica antecede sua posterior utilização em contextos alquímicos.
Na arte medieval, tornou-se comum representar: o pelicano → o peito ferido → os filhotes → o alimento produzido pelo próprio corpo. A imagem passou a sugerir sacrifício, nutrição e renovação.
Isso explica parte da força que o símbolo adquiriu quando posteriormente entrou em outros universos simbólicos.
O pelicano na alquimia
A alquimia medieval e renascentista aproveitou muitas imagens que já circulavam na cultura europeia.
Mas não devemos imaginar que os alquimistas simplesmente pegaram o símbolo cristão e deram a ele um significado novo e único.
A linguagem alquímica funciona de maneira mais complexa. Uma imagem pode possuir várias camadas de sentido simultaneamente. O pelicano é um bom exemplo.
Em determinados contextos alquímicos, ele aparece relacionado à ideia de alimentação e circulação. Em outros, pode representar uma substância ou uma etapa do trabalho.
A obra de Lyndy Abraham, A Dictionary of Alchemical Imagery, destaca justamente a natureza mutável dos símbolos alquímicos. O pelicano, por exemplo, pode representar um tipo de aparelho de destilação com circulação, mas também pode aparecer como símbolo do elixir vermelho ou da multiplicação.
Portanto: não existe uma única tradução para o pelicano. É preciso observar o contexto.
O Pelicano como vaso alquímico
Aqui encontramos uma das associações mais interessantes. Em determinados textos e representações, “pelicano” é também o nome de um tipo de recipiente ou aparelho alquímico.

🏛️ Observação histórica
A imagem é uma recriação artística e não representa um aparelho histórico específico. O termo “pelicano” foi utilizado na tradição alquímica para designar determinados recipientes ou aparelhos associados à circulação e à destilação. A forma e o uso desses equipamentos variaram conforme o período e a fonte. Portanto, a ilustração deve ser entendida como uma representação didática, e não como uma reconstrução arqueológica exata.
Isso acontece porque o formato do equipamento lembrava o corpo e o pescoço da ave. O aparelho estava relacionado à circulação de substâncias, especialmente em processos de destilação.
Adam McLean, ao estudar a relação entre animais simbólicos e equipamentos alquímicos, mostra exemplos em que o pelicano aparece associado a aparelhos de destilação.
Essa informação é importante porque muda completamente nossa leitura. Quando encontramos um pelicano em uma imagem alquímica, não devemos perguntar imediatamente:
“Qual é o significado espiritual desse animal?”
Precisamos perguntar também: “Será que o pelicano está representando um recipiente ou uma operação de laboratório?”
Essa é uma das regras mais importantes para quem está começando a estudar iconografia alquímica.
O pelicano e a circulação
A ideia de circulação aparece de maneira especialmente interessante quando o pelicano representa um aparelho. A substância é aquecida, sobe, condensa e retorna. Existe, portanto, um movimento de ida e volta.
Isso estabelece uma relação visual com uma das características da linguagem alquímica: a transformação não acontece necessariamente em uma linha reta.
A matéria pode ser dissolvida, separada, purificada, reunida e novamente transformada. Por isso, a imagem do pelicano pode ser lida em relação ao conceito mais amplo de circulação da matéria.
Mas é importante não transformar essa observação em uma regra absoluta. O significado depende do emblema específico.
O pelicano e o sacrifício
Existe outra camada simbólica. A tradição medieval do pelicano que alimenta os filhotes com o próprio sangue oferece uma imagem extremamente poderosa: algo é retirado de si mesmo para alimentar aquilo que está sendo gerado.
Essa estrutura simbólica poderia ser facilmente incorporada à linguagem alquímica de transformação.
O trabalho alquímico frequentemente utiliza imagens de morte, dissolução, alimentação, geração e renascimento.
Em determinadas interpretações posteriores, o pelicano passou a ser associado à formação da matéria vermelha ou do elixir. A tradição iconográfica estudada por Adam McLean relaciona o pelicano a uma fase de transformação e à imagem do sangue como elemento de nutrição.
Mas devemos fazer uma ressalva: não é correto afirmar que todo pelicano em um manuscrito alquímico significa Rubedo. O símbolo não funciona como um dicionário automático e essa é uma informação que vou sempre repetir e que você precisa levar sempre em consideração.
O Pelicano e a Grande Obra
Quando estudamos a Grande Obra, encontramos uma linguagem cheia de imagens de transformação.
A matéria pode ser:
- morta;
- enterrada;
- dissolvida;
- lavada;
- alimentada;
- reunida;
- elevada;
- fixada;
- multiplicada.
O pelicano pode entrar nesse universo justamente por sua relação com alimentação, circulação e geração. Inclusive, em determinados conjuntos simbólicos, ele aparece ao lado de outros pássaros.
Adam McLean observa uma sequência iconográfica na qual aparecem Corvo, Cisne, Pavão, Pelicano e Fênix, associando essas aves a diferentes momentos do processo alquímico. Ele próprio alerta, porém, que não se deve atribuir significados rígidos aos símbolos fora de seu contexto.
Isso é muito importante para nosso método de estudo. O símbolo não deve ser interpretado sozinho.
O Pelicano e a Fênix
Essa associação aparece de forma particularmente interessante em alguns emblemas. Em um dos emblemas registrados na base de imagens alquímicas de Adam McLean, por exemplo, aparece um pelicano alimentando seus filhotes junto a uma Fênix que se eleva de sua pira.
A combinação é significativa. O pelicano apresenta uma imagem de nutrição e continuidade. A Fênix apresenta uma imagem de morte e renascimento.
Quando aparecem juntas, não precisamos necessariamente escolher um único significado para cada uma. O mais interessante é observar a relação entre as imagens. Essa é uma característica fundamental da leitura alquímica.
O que o Pelicano não significa necessariamente
É importante evitar algumas simplificações.
“Pelicano significa sempre sacrifício.”
Não. A imagem do sacrifício pertence à tradição medieval do pelicano e pode participar da leitura alquímica, mas o símbolo também pode representar um recipiente, uma operação ou uma substância.
“Pelicano significa sempre Rubedo.”
Também não. Há contextos em que a associação com o vermelho e o elixir aparece, mas não devemos transformar essa interpretação em uma regra universal.
“Todo pelicano em uma imagem alquímica representa o mesmo processo.”
Não. O contexto textual e visual é fundamental.
Como interpretar um pelicano em um emblema alquímico?
Quando você encontrar um pelicano em um livro, manuscrito ou gravura, experimente seguir este pequeno método.
1. Observe a imagem
O pelicano está sozinho? Está alimentando filhotes? Está dentro de um recipiente? Está acompanhado por outros animais?
2. Observe o recipiente
Existe um vaso ou aparelho próximo? O pelicano pode estar representando o próprio equipamento?
3. Observe as cores
É um pelicano branco? Vermelho? Existe sangue? Existe fogo? As cores podem ser importantes para a interpretação.
4. Leia o texto ao redor
Essa é uma das etapas mais importantes. A imagem não deve ser separada do texto que a acompanha. Na iconografia alquímica, imagem e palavra frequentemente trabalham juntas.
5. Procure outros símbolos
Aparecem:
- Sol?
- Lua?
- Rei?
- Rainha?
- Fênix?
- Corvo?
- Serpente?
- Vaso?
A combinação pode modificar completamente a interpretação.
O Pelicano como lição para estudar alquimia
Talvez essa seja a maior contribuição do símbolo do pelicano para quem está começando. Ele nos ensina que não devemos procurar um significado único para cada símbolo alquímico.
O mesmo símbolo pode ser: animal → recipiente → operação → substância → estágio da obra → imagem espiritual dependendo do contexto.
A alquimia trabalha com uma linguagem extremamente flexível. É por isso que um bom estudo não começa perguntando: “O que o pelicano significa?”
Começa perguntando: “O que este pelicano está fazendo nesta imagem?” Essa pequena mudança de pergunta transforma completamente a leitura.
Em resumo
O pelicano possui uma longa história simbólica anterior à alquimia. Na tradição medieval, tornou-se uma imagem associada ao sacrifício, ao sangue e à nutrição dos filhotes. Essa tradição foi posteriormente incorporada e transformada em contextos alquímicos.
Na alquimia, porém, o pelicano pode assumir diferentes funções. Ele pode representar:
- um aparelho ou vaso alquímico;
- a circulação de uma substância;
- uma imagem de nutrição e geração;
- o elixir em determinados contextos;
- processos relacionados à transformação e multiplicação;
- e, em algumas sequências iconográficas, uma etapa do trabalho alquímico.
Não existe, portanto, uma tradução única. O verdadeiro estudo começa quando deixamos de perguntar apenas “o que significa o pelicano?” e começamos a observar como ele aparece dentro de cada emblema.
Essa é uma das chaves para compreender a linguagem da alquimia.
Perguntas frequentes
Por que o pelicano aparece na alquimia?
O pelicano entrou na iconografia alquímica a partir de uma tradição simbólica mais ampla, na qual a ave era associada ao sacrifício e à alimentação dos filhotes. Na alquimia, passou a adquirir outras funções, inclusive relacionadas a recipientes e processos de circulação.
O que o pelicano simboliza na alquimia?
Não existe um significado único. Dependendo do contexto, pode representar nutrição, circulação, um aparelho alquímico, o elixir ou determinadas fases do trabalho.
O pelicano representa a Rubedo?
Em algumas tradições iconográficas, o pelicano é associado à matéria vermelha ou ao elixir, mas não devemos afirmar que todo pelicano representa necessariamente a Rubedo.
O pelicano é um vaso alquímico?
Em determinados textos, pelicano é também o nome de um aparelho ou recipiente utilizado em operações alquímicas, especialmente associado à circulação de substâncias.
O pelicano é um símbolo cristão?
Sim. A imagem do pelicano que alimenta os filhotes com seu sangue tornou-se uma conhecida alegoria cristã do sacrifício de Cristo na arte medieval.
Como interpretar o pelicano em uma imagem alquímica?
É necessário observar a imagem inteira: o que o pelicano está fazendo, quais objetos aparecem ao seu redor, as cores, os outros símbolos e, principalmente, o texto que acompanha o emblema.
Da Biblioteca da Autora
Para quem deseja estudar os símbolos alquímicos de maneira mais aprofundada, uma referência fundamental é Lyndy Abraham, A Dictionary of Alchemical Imagery, publicado pela Cambridge University Press. A obra é particularmente útil porque mostra justamente como os símbolos alquímicos podem assumir diferentes significados conforme o contexto.
Também vale consultar o trabalho de Adam McLean sobre iconografia alquímica, especialmente seu catálogo de imagens e seus estudos sobre os animais presentes na tradição alquímica.
Para a história anterior do símbolo, o J. Paul Getty Museum possui registros de representações medievais do pelicano alimentando seus filhotes, permitindo compreender como essa imagem se desenvolveu antes de sua utilização em outros contextos simbólicos.
📚 Referências
ABRAHAM, Lyndy. A Dictionary of Alchemical Imagery. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
McLEAN, Adam. The Birds in Alchemy. Estudos sobre a iconografia dos pássaros na tradição alquímica.
McLEAN, Adam. Gallery of Alchemical Images — The Pelican.
J. PAUL GETTY MUSEUM. Pelican Feeding her Young. Registros de iconografia medieval.